quarta-feira, 5 de junho de 2019

Recomendação #26: Rock 'N' Roll On The New Long March


Rock 'N' Roll On The New Long March- Cui Jian
por Luca Szaniecki Cocco

Uma recomendação musical quase toda semana





Em homenagem aos 30 anos da ocupação da Praça Celestial, data que as autoridades chinesas fazem de tudo para passar despercebida, quero falar hoje de Cui Jian.


Cui Jian (se pronuncia Swan Jen, para os que tentaram pronunciar) é provavelmente a figura musical chinesa mais importante do século XX. O multi-instrumentalista nasceu em Pekin e aos 20 anos de idade já havia sido aceito na Orquestra Sinfónica de Pekin como trompetista, o que mostra seu enorme talento musical. Porém, Cui Jian não estava satisfeito com o que aprendia na Orquestra e, nos intervalos, aprendia guitarra elétrica, instrumento tabu na China dos anos 80 (representava o imperialismo yankee). Alguns anos depois, foi expulso da Orquestra pelo seu relacionamento cada vez maior com a música pop e rock dos EUA. No mesmo ano, 1985, foi proibido de tocar músicas por 12 meses sob ordens de um oficial militar. A proibição foi ineficaz já que Cui Jian usou deste período para se inspirar ainda mais de artistas tais como os Beatles, Sting ou os Rolling Stones.

Musicalmente falando, o talento de Cui Jian é de fato único. Não somente consegue trazer o lado ocidental do rock e do pop ocidental (mas também um pouco de punk, jazz e rap rock) para a língua chinesa, mas como também consegue incorporar elementos da música chinesa tradicional em suas canções, principalmente nos instrumentais extremamente originais (alguns instrumentos tradicionais, flautas…). E foi justamente isso que mais me surpreendeu em sua música: como conseguia trazer essa energia e transformá-la em algo próprio e original, capaz de inspirar milhares de jovens chineses vivendo sob o “socialismo de mercado” de Deng Xiaoping.

De fato, foi essa capacidade incrível de fusão que permitiu que Cui Jian se tornasse um ícono para os jovens chineses, a mesma geração que ocupou a Praça Celestial em 1989. O álbum recomendado é provavelmente seu mais icônico e provocativo (até seu título, por exemplo, faz referência a um grande marco do movimento comunista chinês, a Longa Marcha). Uma de suas canções, “Not to my Name”, se tornou um tema dos jovens de 1989 e Cui Jian foi inclusive considerado um de seus principais líderes e influenciadores. Após o triste massacre que marcou uma geração inteira, Cui Jian teve que manter perfil baixo por um tempo antes de poder voltar com força aos palcos. E desde então nunca parou de ser uma voz crítica e provocativa, parodiando, por exemplo, a música revolucionária de “Nanniwan”.

Diante de uma “comemoração sufocada” desses 30 anos da Praça Tiananmen, quis homenagear essa bela voz que ainda acredita em um outro futuro para a China. Terminarei citando sua reposta quando perguntado sobre seu engajamento político: “Eu falo de coisas sérias em meu coração e na vida das pessoas, inclusive, é claro, o amor. Mas, principalmente, trata-se da cultura chinesa, a cultura moderna. Não são canções políticas. É apenas a verdade, a verdade moderna. Eu falo de nossa vida na China” (“I talk about serious things in my heart and people’s lives, including, of course, love. But, mostly it’s about Chinese culture, the modern culture. They’re not political songs. It’s just the truth, the modern truth. I talk about our life in China.”).

A China ainda precisa de uma Nova Longa Marcha.

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